

Anasor ed Searom
A obra de Anasor ed Searom se constrói a partir da figura humana como território de metamorfose. Suas personagens femininas surgem em trajes que evocam o vestuário europeu dos séculos XVII e XVIII, mas são atravessadas por um elemento de ruptura fundamental: a cabeça é substituída por aves, instaurando uma tensão imediata entre humanidade, natureza e mito.
Essa substituição não opera como ornamento surrealista, mas como dispositivo simbólico. A ave - tradicionalmente associada à liberdade, à travessia espiritual e ao presságio — ocupa o lugar da identidade racional, deslocando o sujeito para um campo híbrido, instintivo e arquetípico. O corpo permanece humano, elegante e histórico; o pensamento, no entanto, pertence a outro reino.
O fundo escuro, quase teatral, isola as figuras do tempo e do espaço, conferindo-lhes uma presença solene e silenciosa. Não há narrativa explícita: o que se impõe é o estado de suspensão, como se essas figuras existissem entre o antes e o depois de um acontecimento invisível.
Anasor ed Searom dialoga com tradições do realismo fantástico, do simbolismo e do surrealismo poético, mas evita o excesso onírico.
Sua pintura é contida, precisa e formalmente elegante, o que amplia sua potência psicológica. O estranhamento nasce da intenção - não do excesso.









